Hamlet: A Tragédia da Indignação Moral
Uma figura patética o Hamlet, não porque ele reflete demais e assim deixa de agir, como ele mesmo define a sua situação, mas porque ele nunca terminou os seus estudos em Wittenberg. Curioso este detalhe da peça. Shakespeare nos diz que Hamlet estudava nesta cidadezinha alemã conhecida principalmente pelos 95 teses que Lutero pregou na porta do seu castelo, assim lançando a Reforma Protestante. Na época em que a peça se situa, a Reforma nem tinha começado, mas também nem existiam universidades. No máximo alguns mosteiros onde se podia estudar teologia. Mas estes detalhes são de menor importância. Shakespeare nunca se preocupou muito com a veracidade histórica. No entanto, a referência indireta a Lutero não deve ser casual.
Como Hamlet, Lutero tinha uma visão bastante cínica da natureza humana. Nos somos todos pecaminosos por natureza por trás dos nossos atos, aparentemente os mais nobres, jaz sempre o interesse próprio. Para Lutero, o melhor que podemos fazer é reconhecer o próprio egoísmo, em vez de nos iludir pensando que somos virtuosos. Lutero aprendeu a conviver com este mal, valorizando os pequenos bons atos gratuitos que às vezes recebemos dos outros. Era a confiança (fé) nestas graças que o salvaria. Mas Hamlet não se conformava com isto.
Na peça de Shakespeare, Hamlet acaba de se dar conta do mal no mundo. De um adolescente idealista com juramentos de amor eterno para a namorada, e as melhores intenções para o seu reino, ele passa subitamente a enxergar a falsidade humana e de forma dramática, pois é a própria mãe que se mostra má. A crise existencial desencadeada por esta revelação vem rápido demais, sem o tempo necessário para aprender a viver com este conhecimento. Hamlet zomba da "sabedoria"dos velhos cínicos, e dos seus conselhos práticos de vida, como aqueles dados por Polônio ao seu filho (p.ex. "Nunca empresta dinheiro a um amigo, pois isto resultará não apenas na perda do dinheiro, mas também do amigo"). Segundo Hamlet o velho Polônio merecia o seu assassinato acidental, por ser demasiado servil e conformado com os males do mundo. Mas Polônio, pelo menos, aprendeu a lidar com os defeitos dos outros não exigia a perfeição, não tentava "corrigir" estes defeitos, nem queria aceitar, engolir, combater ou perdoá-los. Simplesmente queria se isloar destas falhas, evitando as situações em que se manifestam. Hamlet lamenta mais o suicídio da ex-namorada, Ofélia, mas não se deixa iludir com os seus ares de inocência, e não tem pena em apontar as suas falsidades egoísmos que ela mesma não percebe. Assim, não escapam nem os que reconhecem e aprendam a conviver com os males do mundo, nem os "inocentes" que ainda não se deram conta destes males. Hamlet não sabe onde se situar.
Uma opção para lidar com estes males é refletida várias vezes na peça. Trata-se do perdão, tema caro ao catolicismo. Mas Hamlet sempre vê o absurdo desta noção. O pai dele (mais virtuoso que os outros) é condenado a vagar no purgatório somente porque foi morto de surpresa, antes de poder se confessar, e o tio mau caráter não pode ser morto logo depois dele se confessar, pois assim ele morreria purificado e salvo. A possibilidade de Hamlet perdoar os outros é explorado um pouco no encontro com Laertes, mas Shakespeare trabalha muito pouco isto. Também é pouco trabalhado o outro grande tema, a "redenção". Pena Shakespeare não ter examinado melhor estas outras possibilidades. Teria completado melhor as reflexões filosóficas. Mas talvez estas falhas acabam justamente retratando melhor a falta de amadurecimento do jovem anti-herói.
Para enfrentar os males ao seu redor, Hamlet se deu uma escolha entre apenas duas das opções possíveis: engolir os defeitos ("sofrer as pedradas e flechas do destino ultrajante", o que implicaria no sono ou morte), ou combatê-tos ("pegar armas, contra o mar de problemas, para se opor a eles"). Parece que Hamlet escolheu a segunda opção, e resolveu defender a "honra". Mas a própia noção de "honra" também se mostrou falha e na realidade as armas que Hamlet pegou só serviram para cumprir a primeira escolha. Está aí a tragédia, não só de Hamlet, que se tornou um monstro, mas também de todos os seus amigos e familiares. Se ele tivesse reconhecido outras opções a estória teria sido outra.